o que eu quero é fazer um simples e lógico elogio do amor puro. parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. já ninguém aceita amar sem razão. hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. porque dá jeito. é estranho, mas nunca vi namorados tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. incapazes de um gesto largo, de correr um risco.. já ninguém se apaixona? já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? o amor é uma é uma coisa, a vida é outra. o amor não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo,o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida. o amor é uma coisa, a vida é outra. a realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. a vida que se lixe. num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. ama-se alguém. por muito longe, por muito difícil, por muito desesperante. o coração guarda o que nos escapa das mãos. e durante o dia, e durante a vida, quando não lá está quem se ama, não é ela que nos acompanha, é o nosso amor, o amor que se lhe tem, não é para perceber. é sinal de amor puro não se perceber, amar é não se ter, querer e não guardar esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. não se pode ceder. não se pode resistir. a vida é uma coisa, o amor é outra. a vida dura a vida inteira, o amor não. só um minuto de amor pode durar a vida inteira. e valê-la também.
